Mochileira de Jesus

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Relato: Malawi, Africa


Faz um tempo já que fiz essa viagem e eu publiquei aqui no blog alguns pensamentos que tive lá. Mas nunca quis fazer um relato muito detalhado, até porque quando cheguei estava meio estranha fisicamente, com algumas feridas no rosto e 7 kgs a mais.


Mas esses dias postei uma foto no grupo "Mochileiros" no Facebook e alguns me motivaram a escrever esse relato mais detalhado.

É muita informação e vou tentar organizar para colocar aqui, outra coisa é que eu perdi meu HD com todas as fotos, então tenho as fotos que estão no Facebook e as dos meus amigos companheiros de viagem.

Primeiro de Tudo: Por que Malawi?

Eu morava no Chile e trabalhava meio período como missionária para a igreja, o outro meio-período eu trabalhava como arquiteta para minha própria empresa lá em Santiago.

O meu chefe, pr. José Soto morou em Malawi por muitos anos, trabalhando na região de Monkey Bay a TV aberta do Chile fez um documentário muito legal sobre ele no programa "Chilenos por el mundo", você pode acessar o vídeo aqui (obviamente está em espanhol).

Caso você assistiu o vídeo, deu para ver um pouco do tipo de trabalho que ele já estava fazendo por lá e de como ele era querido e respeitado por todos.

Então um dia o José me falou:

"Day, tem um lugar lá em Malawi que fica isolado e só dá para chegar de barco, lá não tem nenhuma escola e como eles não tem acesso a outros lugares, as crianças não são alfabetizadas. Eu construí uma igreja lá que eles usam como escola, mas é muito pequena e só tem espaço para os grandes, quero construir algo para as crianças pequenas. Você pode fazer um projeto e viajar comigo para acompanhar a obra?"

Você já sabe qual foi minha resposta... SIM, era tudo que eu queria: usar minha profissão para ajudar a outros, viajar e conhecer outra cultura.

Eu teria que arrumar o dinheiro da passagem, e o resto era por conta da missão, esse foi um perrengue, pois eu era praticamente voluntária em tudo e o dinheiro que eu ganhava era para pagar as despesas básicas em Santiago.

Mas se Ele quer acontece, então um monte de gente me ajudou e consegui o dinheiro da passagem (1486 dólares) e acho que levei mais 200 dólares para comprar coisas por lá e ainda voltei com 100 dólares e cheia de presentes.

Equipe de Voluntários


A equipe era formada por pessoas da nossa igreja de diferentes profissões.

- José, sua esposa Naarita, e a filha Maria Gracia (de 1 ano e meio) chilenos
Conheciam todo o país, moraram lá por muitos anos e tinham muitos contatos.

- Mamá Rose
Ela já foi candidata a miss do Chile, a mochileira mais experiente de 60 anos, era a segunda vez que viajava para lá (ano passado foi de novo). Ela era a voz da experiencia e reconciliação, foi a principal responsável por deixar o grupo unido até o fim.

- Ceci (enfermeira)
Chilena, ela cuidou das crianças doentes e ensinou os pais sobre cuidados básicos de higiene.

- Zeni e Karlita
Chilenas, as duas são professoras de jardim infantil, elas além de dar algumas aulas para as crianças fizeram um curso de capacitação para os professores.

- Fernando
Costarriquense, é executivo em uma empresa internacional no Chile. Ele foi o responsável pelas as finanças antes, durante e a prestação de contas depois da viagem. Ajudou na obra de construção.

- Capi (capitão)
General do exercito chileno, muita experiencia em acampamento e situações extremas. Ajudou na obra de construção.

- Andrea e Noel
Casal colombiano, ela diretora de TV e ele engenheiro de computação, foram os que fizeram registros fotográficos e videos. E ajudaram em tudo em geral.

- Maniano
Peruano, executivo de uma empresa aérea, o filha da mãe pagou 70 dólares na passagem! kkk  Ele ajudou na obra de construção.

- Eu (Dayi) - colocaram um i a mais no meu apelido para não parecer "morte" em inglês. rs
Brasileira, arquiteta, que morava no Chile a 3 anos. Fui a responsável por fazer o projeto e tocar a obra da escola.

Visto

O visto tem que ser pedido em Brasilia, e demora um pouco. Eu enviei por correio meu passaporte (sim não tinha outro jeito) e depois de uns 20 dias chegou em casa com o carimbo do visto. E paguei a taxa de 100 dólares.


Trajeto

O aéreo foi Santiago - São Paulo - Joannesburgo - Lilongwe.

Como minha família mora em Sampa eu fui antes para passar um tempo com minha família e encontrei depois com o pessoal no aeroporto (a doida da foto sou eu).

Quando chegamos na Africa do Sul, alguns amigos do José nos foram buscar. Eles tem um tipo de hotel para missionários (quase todos chegam ai) e para nós não era nada parecido com a Africa que imaginávamos, mas a vida boa foi só por 1 dia, porque no dia seguinte embarcamos para Malawi.

O voo foi de 2:30 horas, e bem tranquilo. Mas o aeroporto.. era uma bagunça, um calor tão intenso e demora um tempo até você acostumar com o cheiro que as pessoas exalam. Estivemos cerca de meia hora na fila de imigração e qualquer terminal rodoviário no Brasil é maior e melhor organizado que lá. Depois de mostrar 3 vezes meu certificado de vacina da febre amarela e responder um questionário pude sair do aeroporto.

Os pastores da igreja Vineyard de Malawi nos estavam esperando com uma Kombi antiga por volta das 15:00, o sol estava de rachar e como já mencionei, demora um tempo para acostumar com o cheiro diferente. Viajamos por 8 horas nessa kombi caindo aos pedaços até chegar em Monkey Bay.
Quando entramos na última estrada apareceram no nada cerca de umas 20 mulheres gritando e dançando e mais umas 100 crianças gritando atrás da kombi, essa foi sem dúvida a parte mais emocionante da viagem, era mais de meia noite e centenas de pessoas começaram a gritar, dançar e cantar: "José voltou, José voltou, Naarita também".

Até agora eu me emociono de escrever, porque sou evangélica a muito tempo, me decepcionei tanto com pastores e me sinto muito honrada por ser pastoreada por um cara tão simples e louco como José. Ele não viajava para África para tirar fotos de crianças e pedir dinheiro para a igreja no Brasil, Chile.. ele realmente amava e era amado por todos naquele lugar. Ele conversava com eles em Chicheua que é o idioma tribal de Malawi, ele não era um Azulu (assim chamam os homens brancos desconhecidos lá), ele era um deles. Me senti muito orgulhosa de ter um pastor que ao contrário de muitos, não estava nem ai com o dinheiro e nem de se colocar em posição superior por ser branco, sacerdote ou qualquer outra coisa.

Bom... depois de toda a emoção, e de estar exaustos... ainda tínhamos que montar as barracas. Eu só queria dormir mínimo 12 horas, e o José dá a notícia: "Então gente, agora que terminamos de armar a barraca (era 1:30 da manhã) descansem, porque as 4:30 vamos pegar o barco, então precisamos acordar as 4:00 para desmontar as barracas e chegar na ilha" (chamam de ilha, mas é ilhado por não ter acesso terrestre por causa de uma montanha, não por ser separado do continente).

Eu pensei que nunca acordaria as 4 da manhã, mas para minha surpresa o sol já estava brilhando nessa hora, era impossível ficar dentro da barraca com tanto calor e ainda mais eu que tenho claustrofobia e estava na barraca com mais 4 mulheres.

Então depois de 50 minutos de barco enfim chegamos ao destino final: Mvunguti!!!


Cultura: Lado bom, lado ruim

Acordar ao som de africanas cantando felizes enquanto lavavam roupa no lago, afinação que nem em concertos caros no Brasil eu tinha ouvido, os homens que faziam o tenor enquanto tiravam o peixe do barco, pessoas tão lindas e sorridentes que não tem nada, mas ao mesmo tempo tem tudo.
Crianças tão respeitosas e felizes, que fazem com muita criatividade o próprio brinquedo. Que dão risada e brincam o tempo todo, mudou a minha vida olhar nos olhos de esperança e felicidade, que ofuscavam as dificuldades que tinham. Esse dia eu decidi que seria mãe de um africano, e hoje esse não é um sonho só meu, mas também do meu marido de ser pais adotivos.

A outra coisa é que estávamos cheios de equipamentos, Macbook, Iphone, Câmeras... tudo que valia mais de 10 anos de trabalho deles, deixávamos tudo lá na barraca e nunca ninguém tocou em nada.

Hahaha.. nunca vi tanto homem pelado na minha vida, nosso acampamento era enfrente ao lago onde eles se banhavam depois de descarregar os peixes. Parecia que eles faziam academia o dia inteiro, qualquer um deles poderia ser modelo fora da África e ganhar muito mais do que 43 dólares  (salário mínimo que a maioria não ganha nem metade disso).

Não desmerecendo a campanha que fizeram recentemente no Brasil de "cultura de estupro" mas queridas isso não é nada. Lá realmente o machismo é a nível extremo.

Para começar era uma humilhação para eles que uma mulher fosse a chefe de obra, ainda mais porque nessa época eu era solteira (só é considerado adulto uma pessoa casada). Ou seja, uma criança mulher mandando neles. Realmente eu tive que ser bem dura, demitir 2 trabalhadores por me desrespeitarem e me recusar a dar um mandazi (tipo um sonho de padaria cheio de óleo) para o cara que não obedeceu uma ordem.

É da cultura que o homem não pode carregar nada (supostamente para ter mãos livres e proteger a mulher), então é comum você ver uma mulher com um filho amarrado nas costas, panela cheia de água na cabeça e saco de batatas na mão, enquanto o marido vai atrás sem carregar nada!

Quase tive um colapso quando chegaram os sacos de cimento de 50 kg e os homens que eu tinha contratado para construir a escola foram chamar suas esposas para carregar sozinhas os 50 kg na cabeça, e depois dois homens com muito esforço colocavam juntos o cimento no chão, foi assim também com os tijolos, até eu chamar os voluntários para carregar os tijolos também e começar a zuar com eles dizendo que os brancos eram mais fortes porque os negros precisavam chamar as mulheres, dai mexeu com a auto-estima e eles ficaram bravos, pegavam uma pilha de tijolos cada um e mostravam que eram muito mais fortes que os brancos.

O banheiro era um buraco no chão, e eu e as outras mulheres tínhamos que ser acompanhadas por um homem para ir ao banheiro, muitas vezes íamos em grupos grandes. Era uma das partes mais importantes do dia, o humor de cada um dependia desse momento! Caminhávamos 10 minutos sempre na manhã, pois a tarde tinham muitas moscas e a noite milhões de baratas.

Graças a Deus minha menstruação chegou quando eu ainda estava na África do Sul, e voltou quando eu já estava mais acostumada com o lugar, mas era tenso para as mulheres em todo o sentido. Sempre tínhamos que estar acompanhadas por homens, pois se você é estrupada (muito comum) você pode até ser presa.

Lá meninas de 5 anos, as vezes até menos são vendidas em troca de peixe. Em outra vila cercana o chefe da tribo tirava a virgindade das meninas quando elas menstruavam pela primeira vez, e esse cara tinha AIDS. Então é muita violência sexual que as mulheres sofrem, desde da infância até o fim da vida, realmente é muito triste.

Dias de Folga


Depois de 2 semanas totalmente exaustos, o José nos levou para um lugar para descansar.. pagamos 1 dólar para passar o dia!

Depois fomos no mercado de rua de Malawi.. lá te oferecem artesanatos manuais incrivelmente baratos, por exemplo uma girafa de ébano maciço e 1 metro de altura me ofereceram por 20 dólares, você pode pensar: "Nossa que barato" mas eu a comprei por 5 dólares, todos os preços realmente são mais ou menos 1/4 do que te oferecem.

Também fizemos um safári pelo lago Malawi, onde na hora mais quente do dia podemos ver todos os animais ir tomar água. Lá é famoso também um lugar de crocodilos, onde você pode comer, comprar coisas de couro e tirar fotos com os crocodilos bebes.. mas quem me conhece sabe que não é o tipo de atividade que eu curto.

De volta a África do Sul

Estivemos mais 2 dias em Joanesburgo para a volta, eu espero viajar de novo e talvez mudar de opinião, mas de todos os lugares que já viajei foi o que eu menos gostei, nunca vi o racismo como existe lá. É lamentável, deprimente, depois de toda a luta e fim apartheid as pessoas continuam divididas.
Lá eu fiz Safari no Lion Park e fui no museu do Nelson Mandela (ele morreu uns meses depois que eu voltei para o Brasil).


Alguns perrengues

Estar tanto tempo com um grupo grande de diferentes países em um acampamento pequeno pode gerar grandes discussões, mesmo com uma boa amizade. Não foi fácil estar mais de um mês com pessoas que você só via algumas horas no fim de semana.

Pode te parecer super insensível, mas é impossível ficar sozinha lá. Primeiro pela coisa da segurança, segundo porque do nada aparecerem 100 crianças e quando você vê estão todas atrás de você. Realmente aquele tempo na viagem, você com você mesmo não rola.

O lago de Malawi é cheio de crocodilos, eu não tirei foto porque estava com muito medo, mas de noite nem pensar em entrar no lago.

Dos voluntários eu era a pessoa que mais ficava exposta ao sol, apesar do cuidado com filtros solares, tive algumas queimaduras, cheguei a desmaiar uma vez. Eu tinha que entrar no lago a cada 1 hora mais ou menos. Voltei para casa com algumas feridas no rosto.

Se você vai para respeitar a cultura, você vai passar calor, ninguém lá anda de short isso é um grande desrespeito para eles. Eu usei muito uma saia longa, mas era realmente complicado, principalmente tomar banho no lago com roupa, biquíni nem pensar.

Os pescadores ficam gritando a noite inteira! Sei lá porque, mas eles trabalham de madrugada e ficam gritando bêbados.

Eu não sei bem se é pelo sol quente, mas eu tinha umas visões meio sobrenaturais lá, o que não acontece comigo em outros lugares. Algumas pessoas religiosas dizem que são "espias" que vem ver quem somos. Eu e outras pessoas do grupo tivemos visões desse tipo.



Resultado da Missão

Construímos 2 salas que vão atender 400 crianças, o projeto é construir mais 6 salas e uma clinica
médica. Fomos recebidos com honra pelo rei (existe presidente para assuntos exteriores, o rei é tipo o juiz do país). Entregamos material escolar, uniforme e mochila para todas as crianças, como também salário dos professores.
Sem dúvida uma das experiencias que mais marcou minha vida, me fez olhar diferente o que realmente é riqueza. Eles são milionários!

Obrigada pelos que me apoiaram e incentivaram a fazer parte, a obra ainda não acabou.

Se você quiser saber mais acesse o link: https://vimeo.com/117315318

www.fundacionlavina.cl


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2 comentários:

  1. Dayane que trabalho incrível! Que experiência! Entre no seu blog pelo seu post no grupo dos mochileiros!
    Com certeza Deus fica muito contente com ações como essa! Tenho muita vontade de ajudar como você já ajudou!

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  2. Dayi, me arrepiei em várias partes ao ler o seu relato. Parabéns pelo ato de humanidade e grandeza.

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